No período marcado pela censura e repressão, a música marca até os dias atuais uma das principais formas de oposição ao regime.
A queda da ditadura militar brasileira completou 40 anos em 2025. Com ela, a importância de conscientizar brasileiros sobre o período, é levantada. Até a atualidade, os anos ditatoriais são marcados por formas de cultura que refletiam a opressão e violência do período, além de marcar a resistência dos artistas em lutarem pela livre expressão.
A repressão sofrida pela classe artística é lembrada quando músicas dessa época são mencionadas, a exemplo de É Proibido Proibir, de Caetano Veloso, e É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, composta por Erasmo e Roberto Carlos . O principal responsável por essa violência é o processo de censura institucionalizada — aquela gerida pelo Estado —, um dos pilares da ditadura militar brasileira. Tal forma de inibição garantiu a baixa circulação de ideias contrárias ao governo e adiou a revolta ideológica da população, que só veio à tona com o fim do chamado milagre econômico, o qual ampliou a desigualdade e a concentração de renda. Foi utilizada também para adiar o reconhecimento internacional do sistema opressor vigente no Brasil naquele período.

Sobre a censura
Apesar da ditadura militar ter seu fim em 1985, o processo de censura institucional foi esvaído apenas três anos depois, quando a constituição de 1988 foi outorgada. Em entrevista ao Sala33, o historiador, professor e pesquisador Daniel Saraiva Lopes cita a existência do DCDP — Divisão de Censura de Diversões Públicas —, órgão submetido ao Departamento da Polícia Federal, responsável por padronizar a censura e evitar conflitos de decisões entre diferentes censores e localidades. “Os critérios passaram a ser unificados. A censura na década de 1970 passou a ter concurso para censor, que era obrigado a ter diploma”, adiciona.
O pesquisador destaca duas formas possíveis de censura: política e comportamental. Chico Buarque, com suas composições baseadas em críticas ao militarismo, foi constantemente vetado. Já artistas do movimento tropicalista eram censurados pela sua expressão comportamental, com roupas que não performaram os papéis de gênero estabelecidos pelo Estado, como apropriados ou até mesmo formas de usar o cabelo, que eram consideradas inadequadas.
Os autores deviam submeter as letras para avaliação antes de serem gravadas. Entretanto, a aprovação das letras não significava que ficar livre do veto depois do lançamento. Daniel Saraiva exemplificou esse processo com a música Apesar de Você, que teve sua letra aprovada — pois os censores entenderam que ela falava sobre um caso amoroso — e depois impedida de circular — quando perceberam que se tratava de uma crítica ao regime político. Quando uma música era proibida depois de seu lançamento, os discos na fábrica da gravadora eram recolhidos e todas as suas gravações eram impedidas de tocar.
Com o avanço da censura, os compositores foram obrigados a espalhar a mensagem desejada de maneira velada, mas buscaram diferentes formas de driblar a censura. É importante pontuar que essa violência não interferia apenas nas letras e formas de composições musicais: também afetava capas de álbuns e apresentações. A arte do disco Índia (1973) de Gal Costa foi obrigada a ser coberta por um plástico azul nos estabelecimentos que o vendiam por apresentar a mulher seminua. Tal censura também ocorreu com outras artes de capa.
“Após o advento do AI-5, os compositores foram obrigados a falar de forma cada vez mais cifrada, tendo em vista a perseguição e o fato dos textos das composições necessitarem de autorização governamental prévia para serem lançados.”
Sidney Molina

[Imagem: Antonio Guerreiro/Reprodução/Instagram/@galcosta]
A pedra no sapato
Uma dos primeiros eventos culturais contrários à ditadura militar foi estreado por Nara Leão, Zé Keti e João do Vale. O Show Opinião era uma peça de teatro musical onde os três artistas atuavam a partir de suas realidades e representavam para a classe média um Brasil pouco reconhecido por essa camada. Nara incorporou a Menina Zona Sul, Zé o Morador do Morro e João, o Retirante Nordestino. Para Daniel Saraiva, a união da música com o teatro, no contexto de 1964, foi importante e representou a primeira peça de resistência ao golpe, além de preceder outras do grupo Opinião. O pesquisador destaca o sucesso de público do espetáculo musical, que virou disco e deixou explícita a possibilidade no período de ainda fazer peças que expressavam a insatisfação ao golpe.
“O Show Opinião era um show informativo.
Os jovens estavam sendo informados
sobre o mundo para além dos seus apartamentos da Zona-Sul.”
Daniel Saraiva Lopes
Com a luta dos artistas em driblar a censura, as obras brasileiras foram afetadas pela realidade opressora dos anos ditatoriais. O historiador afirma que a música expressava um Brasil que estava proibido de ser narrado pela imprensa e foi a principal tradutora dos dilemas nacionais do período. Com elas, é possível identificar as mazelas existentes no país, como a pobreza e desigualdade social — questões constantemente omitidas pelo governo.

[Imagem: Reprodução/Acervo/memórias da ditadura]
O professor, a partir de uma frase de Marcos Napolitano, cita que a cultura foi uma “pedra no sapato do governo militar”, principalmente por conseguir vencer a censura institucional.
“O fato é que a ‘questão cultural’
foi o calcanhar de Aquiles da ditadura”
Marcos Napolitano
Mencionou também o impacto das músicas perante a sociedade civil, ao citar Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores. A canção de Geraldo Vandré teve impacto tão forte na população da época que Patricia Falaschi, que tinha onze anos no final da ditadura, tem memórias que envolvem a composição. A entrevistada diz se lembrar de uma aula do ensino fundamental na qual aprendeu a letra da canção, e cita que as aulas de música foram extintas da escola dias depois de começar a ter acesso à obra. Ela menciona que nunca mais viu seu professor de música e que nenhuma outra matéria da grade escolar foi alterada, apenas a disciplina que a apresentou a canção, que foi substituída por português e matemática.

[Imagem: Reprodução/Arquivo Nacional/Correio da Manhã]
A força nos momentos mais críticos
A repressão reverberava fortemente nos artistas que se opunham ao regime. Para fazer menção a isso, Daniel Saraiva lembrou do ocorrido no Phono 73, com Chico Buarque e Gilberto Gil.
Enquanto apresentavam Cálice, vocalises foram feitos em partes não permitidas de ter sua letra cantada. Quando Chico cantava o refrão, o áudio era cortado, Gil seguiu a composição e, sem usar palavras, continuou com o microfone funcionando normalmente. O desconforto dos músicos diante a tentativa de silenciamento foi perceptível. Chico Buarque, em um gesto de agonia, gritou: “Meu som?!”. O acontecimento evidencia a pressão colocada sob os cantores, que se autoexilaram após isso.
“Olha, estão me aporrinhando muito, sabe?
Esse negócio de desligar o som não estava no programa”
Chico Buarque
Outros acontecimentos marcaram a tentativa de calar a cultura. Elis Regina, imposta a cantar nas Olimpíadas do Exército, ficou mal vista entre os indivíduos contrários à ditadura e marcou a coação militar contra a classe artística. Em entrevista ao jornalista Irlam Rocha Lima, a cantora afirmou que foi coagida a participar do evento.
“Eram tantas coisas horrorosas que a gente tomava conhecimento,
que ficava difícil dizer não”
Elis Regina
Além do MPB
Desde o final da ditadura militar brasileira, a Música Popular Brasileira (MPB) é considerada a maior opositora e estilo musical mais perseguido durante o período. Entretanto, a abertura dos arquivos da censura expôs que a música produzida no Brasil, como um todo, sofria problemas, vetos e proibições.
Daniel Saraiva cita o exemplo de Odair José, dono da composição Vou Tirar Você Desse Lugar, que contrariou imposições do Estado militar. Ela prejudicou o cantor pois narrou a história de homem que se apaixonou por uma prostituta. A obra contrariou estruturas morais estabelecidas no momento e fez com com que outras composições de Odair fossem convocadas à análise dos censores antes de seu lançamento. O historiador apontou que essas observações relacionadas a cultura brega ganharam espaço a partir do trabalho acadêmico — que virou livro — Eu Não Sou Cachorro Não (Record, 2002), de Paulo César Araújo, uma das primeiras pesquisas que mostraram que a censura afetou todo o cenário da música brasileira.

[Imagem: Reprodução/Acervo/Odair José]
Entrevistado pelo Sala33, Sidney Molina, professor da Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP) e crítico de música da Folha de S. Paulo, afirmou que músicos foram presos e tiveram que responder a interrogatórios por causa de obras que se opunham ao Estado ditatorial. Segundo ele, os protestos vieram de diferentes artistas e foram exercidos de modos diversos: podiam ser expostos por meio de letras, mas também a partir de harmonias e fusões de estilos e ritmos musicais.
Ele dá espaço para a música erudita, pouco comentada quando o assunto é resistência na ditadura militar. “A música erudita, em sua vertente experimental-vanguardista, propôs múltiplas e criativas formas de contestação nas décadas de 1960 a 1980”, enfatiza. O professor ainda menciona as músicas produzidas a partir da mistura de gêneros, como o samba unido com arranjos elaborados e criativos — como ocorreu em Construção (1971) — e o rock, influenciado pelos Beatles, fundido ou não com ritmos e harmonias típicas do Nordeste — como era explorado pelos Mutantes e Gilberto Gil.

[Imagem: Juvenal Pereira/Divulgação]
A importância da música para a sociedade
“A música foi uma forma privilegiada de luta, reflexão, conscientização e sensibilização durante esse período, e fundamental também durante o processo de redemocratização, quando a ditadura, ainda vigente, dava sinais de fraqueza”, conclui Sidney Molina. Parmúsicaa além da luta contra a ditadura, essa arte também tem peso histórico para identificar os pensamentos, dores e vontades dos brasileiros nos anos marcados pelo governo repressivo dos militares.
É importante destacar que o Brasil não foi o único açoitado com uma ditadura no século 20. Outros países latino-americanos também sofreram com regimes e resistiram com obras que refletiam as dores e dificuldades das nações.
Alguns dos nomes mais expressivos são o chileno Victor Jara, o argentino Charly García e o uruguaio Daniel Viglietti. Músicas como Hipercandombe, que, com seu tom metafórico driblava a censura argentina, servem como lembranças para a população dos horrores vividos nessa época.

Autora: Heloisa Falaschi.
Fonte: Jornalismo Júnior/USP.
