Fittipaldi, Piquet e Senna: as memórias da santíssima trindade do automobilismo brasileiro

Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet foram essenciais para a história do brasil no automobilismo, mas foi Ayrton Senna que se consagrou como ídolo.

O Brasil é o terceiro país com o maior número de campeões mundiais na Fórmula 1, com oito títulos, divididos entre três pilotos históricos: o pioneiro Emerson Fittipaldi, o polêmico Nelson Piquet e o maior símbolo do automobilismo brasileiro, Ayrton Senna. Três pilotos talentosos e indiscutivelmente bem sucedidos, mas com imagens bem distintas perante a mídia e que, sem dúvida, influenciaram suas carreiras, fama, comerciabilidade e criação de suas imagens, principalmente na atualidade.

Apesar de contribuições inesquecíveis para a Fórmula 1, os pilotos terminaram suas carreiras no automobilismo de diferentes formas e tratamentos por parte dos veículos de comunicação. Piquet e Fittipaldi marcaram o esporte, mas nenhum deles com o mesmo impacto massante que Senna. O brasileiro é a grande imagem do esporte para muitos fãs do esporte, contando com séries documentais e biográficas em plataformas de streaming, rosto presente em murais ao redor do país, institutos e até um personagem animado. 

Brasil no Automobilismo e Fittipaldi

Emerson Fittipaldi foi o primeiro a desafiar a hegemonia do norte global na Fórmula 1 desde o pentacampeão argentino, Juan Manuel Fangio. De uma família já integrada ao automobilismo, o piloto estreou na Fórmula 1 em 1970, após um desempenho impressionante nas categorias de entrada. O brasileiro venceu a Fórmula Ford em 1969, além de campeonatos de Kart no Brasil e teve ótimos desempenhos nas Fórmulas 3 e 2. 

Nas pistas, a principal inspiração de Fittipaldi era Chico Landi, o primeiro brasileiro a correr na categoria. Natural de São Paulo, assim como Fittipaldi, Landi se destacou em competições no Brasil e tentou uma carreira internacional a partir de 1947, estreando na categoria principal em 1951. Apesar de anos competindo, não teve tanto êxito quanto nas categorias anteriores, situação que se mostrou diferente para Fittipaldi. 

Sua estreia na categoria foi em 18 de julho de 1970, pela equipe Lotus, no Grande Prêmio da Grã Bretanha. Em sua primeira corrida, largou em 21° lugar e terminou em oitavo,  demonstrando  suas habilidades e respondendo bem às expectativas. Ainda em seu primeiro ano na categoria, Fittipaldi foi essencial para a conquista do título de campeão mundial para seu companheiro de equipe, o autríaco Jochen Rindt. O piloto faleceu durante um treino em Monza, em setembro de 1970, e graças ao seu desempenho e os resultados de Fittipaldi, foi o primeiro e único campeão póstumo da história da categoria. 

Desde sempre, o piloto brasileiro se destacou por sua inteligência tática nas pistas, além de um temperamento calmo, concentrado e analítico, apesar de cheio de personalidade, receptivo e bem humorado. Com o tempo, Fittipaldi foi se destacando cada vez mais nas pistas e passou a chamar atenção do público brasileiro, até então pouco familiar com o  esporte. O atleta foi um dos responsáveis pela popularização do automobilismo no país, que mais tarde receberia Nelson Piquet e Ayrton Senna com mais louvores e atenção. 

O automobilismo e o reconhecimento de Fittipaldi começaram a ser valorizados  ainda em 1970,  com sua primeira vitória na categoria, no Grande Prêmio dos Estados Unidos, em 4 de outubro. A vitória do piloto não foi só a primeira de sua carreira, mas a primeira de um brasileiro na história da Fórmula 1. A notícia chegou rápido à mídia brasileira que, em pouco tempo, mobilizou  uma população eufórica pela categoria, que cresceu enormemente em popularidade após os promissores resultados do piloto.

Em entrevista ao Arquibancada, Fred Sabino, jornalista e editor de automobilismo no grupo Bandeirantes, ressalta que a carreira de Fittipaldi na Fórmula 1 iniciou no período em que as corridas começaram a ser exibidas na televisão. “Além dos resultados em si, chamou a atenção o fato de um brasileiro desafiar e vencer estrangeiros em uma modalidade até então desconhecida pelo público”, afirma o jornalista.

A primeira grande conquista aconteceu dois anos depois, quando Emerson Fittipaldi se tornou Campeão Mundial, ainda na Lótus, equipe que venceu o campeonato de construtores no mesmo ano. Vencedor de cinco das doze corridas da temporada, garantiu o campeonato no clássico GP de Monza, tornando-se o mais jovem campeão da história, recorde quebrado por Fernando Alonso apenas 33 anos depois.

Niki Lauda e Emerson Fittipaldi conversando

Niki Lauda e Fittipaldi no Grid em 1975. Os pilotos eram amigos e em 2019, quando Niki Lauda faleceu aos 79 anos, Fittipaldi o homenageou [Reprodução/Wikimedia Commons]

O segundo campeonato veio em 1974, com a McLaren, o primeiro da história da equipe. No ano seguinte, manteve os bons resultados, apesar de ter finalizado a temporada como vice-campeão. Além disso, o piloto tomou uma arriscada decisão, que classificou Fittipaldi como uma peça extremamente importante para o Brasil na Fórmula 1: o brasileiro deixou a McLaren e fundou, com seu irmão, a Copersucar-Fittipaldi, ou Escuderia Fittipaldi, a primeira e única equipe brasileira da história do esporte.

A decisão era ambiciosa, mas mesmo assim, Fittipaldi se arriscou, disseminando a ideia de que o país poderia agir de maneira competitiva na Fórmula 1. A equipe, criada em 1975 e com participações em mais de cem GPs, teve uma existência repleta de altos e baixos. Apesar disso, a Copersucar nunca chegou a alcançar o patamar de carro competitivo, idealizado por Fittipaldi e seu irmão, e a equipe chegou a um fim em 1982.

Em 1980, Fittipaldi deixou a Fórmula 1 mas não deixou de competir em categorias do automobilismo, vencendo a Fórmula Indy e as 500 milhas de Indianápolis. Mesmo após se distanciar das pistas, o brasileiro ainda se manteve presente no esporte, seja competindo ou orientando novos corredores, incluindo Ayrton Senna, com quem tinha uma relação de amizade. Fittipaldi também está presente na mídia até os dias atuais, concedendo entrevistas sobre o automobilismo e comparecendo em eventos e corridas.

Nelson Piquet e os anos de ouro 

Atualmente, é comum que se refiram a Piquet como um “produto de seu tempo”. Para Reginaldo Leme, um dos jornalistas esportivos mais respeitados do automobilismo brasileiro, o brasileiro é um dos pilotos mais completos da história do esporte, principalmente por suas habilidades na pista, talento nato e inteligência tática invejável.

A imagem de Piquet piorou ainda mais para os fãs do esporte devido a polêmicas recentes do piloto, em que foi condenado a pagar uma indenização por falas racistas e homofóbicas sobre o heptacampeão Lewis Hamilton, durante uma entrevista em 2021. A imagem de Piquet perante a mídia sempre foi conturbada, sendo que alguns veículos se referem  a ele como um desastre de marketing pessoal.

Estreante na categoria em 1978, com um carro alugado pela equipe Ensign, Piquet se tornou tricampeão Mundial de Fórmula 1, vencedor em 1981, 1983 e 1987. Muito interessado e conhecedor de mecânica, o piloto é uma importante referência quanto a conhecimentos técnicos no automobilismo, recebendo até mesmo o título de consertador de carros. Piquet ficou marcado por vencer e se destacar na categoria principal mesmo quando não estava com o melhor carro. O piloto venceu o campeonato de 1983, que parecia encaminhado para o tetracampeão francês, após um erro de Alain Prost no GP da Holanda, que o deixou fora da corrida. 

Carro de Nelson Piquet no GP da Argentina, em 1981

Nelson Piquet em 1981 no Grande Prêmio da Argentina, circuito que deixou de fazer parte do calendário da Fórmula 1 em 1998 [Reprodução/Wikimedia Commons]

Uma das características mais marcantes do brasileiro em pista foi a sua forma de condução leve e diferente a cada etapa da corrida, para garantir o melhor funcionamento possível do carro. Em entrevista à Reginaldo Leme, Sir Frank Williams, fundador da Williams, revelou que acreditava que Piquet era o único dentre os pilotos que entendia as diferentes fases de uma corrida.

Apesar de muito habilidoso e com extremo domínio técnico, o piloto tinha um abordagem mais arrojada, como descreveu Fittipaldi no programa “Roda Viva”, quando foi questionado sobre o famoso dilema “Piquet ou Senna”. Para muitos que acompanham o automobilismo, Piquet é considerado um dos últimos pilotos de uma “geração romântica” da Fórmula 1, em que o piloto era, por vezes, mais decisivo para o campeonato do que a tecnologia do carro, característica marcante do piloto. 

“Uma corrida tem começo, meio e fim,  um piloto precisa agir de forma diferente em cada uma dessas fases da corrida e Piquet consegue fazer isso .”

Sir Frank Williams 

Para além de suas impressionantes conquistas na pista, Piquet também conquistou sua fama de personalidade não midiática cedo, sendo considerado por muitos fãs como antipático e até arrogante, oposto a Senna, garoto propaganda da Fórmula 1 e do Brasil. “O assédio da mídia  e da torcida sempre incomodou muito o Piquet, que nunca quis ser ídolo de ninguém”, aponta Sabino. “Ele queria ser apenas ele próprio, pilotar e pronto. Além disso, o jeito de ser politicamente incorreto e as declarações polêmicas ajudaram a afastar a mídia não especializada.”, completa o jornalista. 

O piloto brasileiro transparecia em suas entrevistas uma postura mais relaxada, menos preocupada com a mídia ou relacionamentos com outros, afirmando que não estava na Fórmula 1 para fazer amigos. Piquet não escondia o que pensava, por vezes  provocando outros corredores, incluindo companheiros de equipe, como o caso de Nigel Mansell, companheiro de equipe do brasileiro na Williams e um de seus maiores rivais no esporte. Em entrevistas, Piquet criticou abertamente Mansell e sua postura, alegando que o inglês era arrogante, além de tê-lo classificado como burro e idiota. 

Além disso, o piloto ficou conhecido por evitar a mídia e ridicularizar jornalistas, alegando que, apesar de campeão, era apenas um indivíduo acima de tudo e tinha direito a sua privacidade. Diferentemente de Fittipaldi, Piquet nunca se esquivou de polêmicas e falas agressivas em entrevistas, coisa que fez com que conquistasse sua fama de ríspido. “O jeito irreverente e sem meias palavras cativou uma parte do público, mesmo considerado ácido por parte da torcida”, afirma Sabino, quando perguntado sobre os fãs de Piquet e sua rivalidade com Senna nos anos 80. 

O herói Ayrton Senna

Em 1988, o primeiro dos três títulos da maior figura do automobilismo brasileiro foi conquistado: o título inédito de Ayrton Senna. O piloto ingressou na Fórmula 1 em 1984, após uma temporada excelente na Fórmula 3, pela clássica equipe Toleman. No ano seguinte, o brasileiro se transferiu para a Lotus e, em 1988, para a McLaren, onde se estabeleceu como um grande piloto. Senna conquistou essa fama não só pelo título que carregava, mas também por ter tornado Alain Prost, piloto já consagrado que no ano anterior disputava contra o implacável Piquet e  seu maior oponente, em uma das maiores rivalidades da história do esporte. 

Apesar de ter se consolidado apenas após o título mundial, ainda em seu ano de estreia, o brasileiro foi protagonista no  GP de Mônaco, em uma das corridas mais famosas de Senna. No circuito, reconhecido por sua estrutura pouco favorável a ultrapassagens, Senna saiu da 13° posição até a segunda, em uma Toleman pouco competitiva e em meio a uma chuva forte, que desacelerou muitos oponentes, incluindo Prost. O resultado inesperado deixou evidente o talento e a consistência do piloto,  que mais tarde, revelou que treinou em pistas com chuva desde seus anos mais primários no kart. 

Ayrton Senna correndo em seu carro da MacLaren

Ayrton Senna em sua McLaren em 1988, seu primeiro ano na equipe inglesa [Reprodução/Instituto Ayrton Senna]

Diferentemente de Piquet, Senna se tornou amplamente conhecido por sua abordagem calma e positiva com a mídia, muito semelhante à abordagem de Fittipaldi, apesar de muito focado, dedicado e até mesmo agressivo nas pistas. Tal abertura transformou o brasileiro em uma celebridade, cujos dramas pessoais, inclusive seus relacionamentos, se sobressaíram e se tornaram até capa de revistas. 

Além da rivalidade nas pistas, a troca de farpas sempre foi relativamente comum entre eles. Em entrevista ao Roda Viva, em 1986, Senna aponta que acredita que a relação de Piquet com a mídia e o fato de não viver no Brasil o afastaram dos fãs brasileiros. O piloto, por sua vez, cresceu próximo aos fãs brasileiros e sempre agiu de forma a ser considerado ídolo e modelo para os consumidores do esporte, coisa que contribui imensamente para a construção do brasileiro como um herói nacional. Quando questionado sobre sua responsabilidade com os fãs brasileiros, anos antes de seu primeiro título mundial, respondeu: “a minha maior responsabilidade é principalmente com as crianças, porque a gente realmente sente nas crianças uma admiração e carinho grande. Isso motiva mais ainda você procurar transmitir alguma coisa especial para eles”.

A imagem de Senna sempre foi a de um homem carismático, humilde e, apesar de focado, muito atencioso, coisa que unida ao que muitos entendem como talento nato e uma incansável busca pela vitória, transformou-o em um ídolo.  “Ayrton Senna foi o que se chama de tempestade perfeita. Além de ser um piloto fora da curva com muita coragem e arrojo dentro da pista, era um personagem carismático num tempo em que futebol brasileiro estava numa época de vacas magras e economia do país patinava”, reflete Sabino. 

“Era uma época em que o Brasil estava saindo de uma ditadura

e precisava de um grande ídolo, Senna preencheu esses requisitos.”

Fred Sabino

Em primeiro de maio de 1994, Ayrton Senna sofreu um acidente, durante o GP de San Marino, que causou a morte do piloto. Recém chegado na Williams, equipe vencedora no campeonato de construtores nos dois anos anteriores, Senna encontrava dificuldade com o novo carro, alegando problemas de dirigibilidade, e com a nova equipe que, por sua vez, tinha problemas com o novo regulamento

O Grande Prêmio de San Marino começou com problemas já na sexta-feira, quando o estreante Rubens Barrichello perdeu o controle do carro, foi para a zebra – uma espécie de lombada que fica às margens da pista e são utilizadas como limites para os corredores e o regulamento – e capotou. O impacto foi tão forte que o capacete de Barrichello chegou a rachar. Apesar disso, o piloto deixou o acidente sem ferimentos graves e foi liberado do hospital no dia seguinte. 

No sábado, o também estreante Roland Ratzenberger sofreu um acidente fatal. A asa dianteira do seu carro – um Simtek S941 – se soltou, e o piloto perdeu o controle, o que fez com que, na curva Villeneuve, atingisse o muro a cerca de 300 km/h. Apesar de ter sido socorrido às pressas, o austríaco foi declarado morto horas depois, no hospital, em decorrência de graves lesões cerebrais. De acordo com crenças pessoais de Senna, que compartilhou com família e até jornalistas, Ratzenberger teria falecido na pista, coisa que, de acordo com a lei italiana, daria um fim às corridas daquele final de semana. 

No domingo, o último acidente do final de semana levou à morte de Senna. Ainda no início da corrida, a barra de direção de sua Williams quebrou, o que levou o carro a deixar de responder aos comandos do piloto. Na curva Tamburello, o carro não respondeu e Ayrton Senna seguiu reto em direção ao muro a mais de 220 km/h, batendo de maneira violenta. Atendido por médicos ainda no local, Senna foi encaminhado ao hospital Maggiore, de Bolonha, onde foi declarado morto, às 18 horas e 40 minutos do horário local. Segundo a autópsia, a causa da morte foi uma perfuração no crânio por uma parte da suspensão do carro Senna, que morreu instantaneamente. 

O corpo de Ayrton Senna chegou ao Brasil em 4 de maio e seu velório foi aberto ao público. Em vinte horas de duração, o evento recebeu cerca de 250 mil pessoas. O caixão foi carregado e escoltado pelo exército brasileiro e o cortejo contou com uma multidão de três milhões de pessoas, que acompanharam sua trajetória e velaram o maior ídolo da história do automobilismo brasileiro, que após sua morte, cresceu ainda mais. 

A imagem de Fittipaldi, Piquet e Senna

Fittipaldi foi o grande responsável por fazer o público brasileiro virar sua atenção à Fórmula 1, que com sua direção segura, estratégica e vencedora, captou a atenção dos brasileiros desinteressados e envolveu o país em automobilismo. Sua postura amigável e composta dentro e fora das pistas foi um fator essencial para sua consagração enquanto piloto no imaginário dos fãs brasileiros, além da criação de um terreno fértil para o que, anos mais tarde, seria Ayrton Senna no Brasil.

Nelson Piquet e Ayrton Senna conversando, sentados em uma mesa de jantar

Ayrton Senna e Nelson Piquet em um jantar, fotografado por Reginaldo Leme [Reprodução/Instagram/@regileme]

Piquet por outro lado, com sua postura mais despojada e pouco midiática, vista por vezes até como arrogância, se afastou da atenção da mídia e consequentemente, dos olhares daqueles que não acompanhavam o esporte tão de perto. Apesar de sua capacidade inquestionável enquanto piloto, Piquet se destaca por suas controvérsias fora das pistas, incluindo falas consideradas hostis, ainda no seu tempo de piloto, em respostas durante entrevistas e até ataques a colegas de equipe. Sua imagem enquanto piloto foi ativamente prejudicada por sua relação com a mídia que, desde o início, não foi das melhores.

Nisso, Ayrton Senna se destacou como uma figura exemplar do automobilismo brasileiro. Tão competente quanto Piquet e tão carismático como Fittipaldi, Senna era tudo aquilo nas pistas e fora delas, característica marcante desde o início de sua trajetória no automobilismo. Mesmo após sua morte, o piloto se mantém como uma das mais importantes figuras do esporte e também uma das mais importantes figuras da mídia e imaginário brasileiro. 

Autora: Ana Carolina Mattos.

Fonte: Jornalismo Júnior/USP.