CazéTV: entre o fenômeno do entretenimento e o limite do jornalismo esportivo

Pesquisa analisa as transmissões esportivas do canal brasileiro e desenvolve debate sobre a responsabilidade e diversão na cobertura olímpica

42 milhões. Esse é o número de espectadores alcançados pela transmissão da CazéTV durante a cobertura das Olímpiadas 2024. Mesmo não tendo a mesma excelência técnica ou os números de grandes emissoras, como Globo e Bandeirantes, o alcance do canal brasileiro chama a atenção. A live realizada pelo portal conquistou o título de maior transmissão da história dos esportes olímpicos, com o pico de quatro milhões de espectadores simultâneos durante a final da ginástica artística feminina. 

A cobertura esportiva produzida pela CazéTV, além do diferencial de transmissão via YouTube, traz algo ainda mais interessante: o humor. Distanciando-se das emissoras tradicionais, a proposta do canal é reproduzir mais autenticidade aos telespectadores, com entrevistas mais despojadas e narrações que utilizam de linguagem popular, mais familiar ao público.

Com números crescentes e uma grande base de fãs, a CazéTV pode soar para muitos como o futuro da cobertura esportiva, mas é dessa afirmação que ressurge a discussão sobre jornalismo e entretenimento. Entre a descontração excessiva e casos polêmicos durante a transmissão olímpica, a jornalista Mariana Marsiaj analisa esse fenômeno da Internet na tese de conclusão de curso “Os limites entre o jornalismo esportivo e o entretenimento na transmissão olímpica da CazéTV”. 

Formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Mariana explica que a motivação da pesquisa veio durante a cobertura da CazéTV do Pan Americano de 2023. Os direitos de exibição do evento não foram adquiridos por nenhuma das grandes emissoras, de forma que a Cazé e o canal do time Olímpico brasileiro ao serem os únicos meios de consumo atraíram muitos torcedores. 

A cobertura bem humorada do canal atingiu números de audiência extremamente significativos, atraindo, inclusive, pessoas que não tinham o costume de acompanhar esportes olímpicos para além do futebol. No entanto, Marsiaj destaca que, logo nos primeiros dias de evento, era possível observar diversas críticas ao tom de brincadeira e à falta de conhecimento técnico dos participantes da cobertura nas transmissões do canal, o que afastava o conteúdo de uma abordagem profissional.

A pesquisa então avançou para tentar responder uma pergunta intrínseca: as transmissões dos Jogos Olímpicos de 2024 na CazéTV podem ser consideradas um produto jornalístico? Em entrevista, a pesquisadora explica que, além da análise da emissora online, é preciso entender sua proposta inicial. “Eles não se propõem a fazer jornalismo e, por isso, não digo que é necessariamente um desserviço ao jornalismo esportivo, mas, se eles se propusessem a fazer, eles teriam um potencial de entregar um produto de uma qualidade muito grande e que seria de graça”, aponta. Mas, mesmo com uma proposta diferenciada, de onde nascem as comparações?

Entrada em campo

Grande parte do público da CazéTV associa o conteúdo ao seu criador — Casimiro Miguel Vieira da Silva Ferreira —, também conhecido como “Casimito” ou “Cazé”.  Natural do Rio de Janeiro, o streamer sempre teve grande paixão pela comunicação e trabalhou durante anos no ramo do jornalismo esportivo, em emissoras como o SBT, Esporte Interativo e TNT Sports. Com uma carreira já consolidada dentro do mundo esportivo, durante a pandemia de 2020, Casimiro passou a se aventurar na Twitch, plataforma de transmissão online, e fazer lives de jogos, reagir a vídeos populares e programas de TV.

Trechos das lives não demoraram a encontrar muito sucesso nas redes sociais, consolidando Casimiro como um fenômeno. Com um conteúdo, agora, para além dos fãs do futebol e voltado para jovens, o streamer resolveu levar sua empresa a um patamar maior, unindo o novo público com sua paixão já antiga pelo esporte.

Print da home do canal Cazé TV no Youtube, indicando os mais de 20 milhões de inscritos da plataforma

Em menos de três anos no mercado, a Cazé TV conquistou mais de 20 milhões de inscritos somente no YouTube [Imagem: Reprodução/YouTube/CazéTV]

A CazéTV nasceu em 2022, separada do canal de cortes de lives de Casimiro. A aquisição dos direitos de transmissão da Copa do Mundo da FIFA de 2022, por meio de um acordo com a empresa LiveMode, transformou o canal em uma verdadeira rede de transmissão. Os jogos eram transmitidos simultaneamente e comentados por Casimiro e seus amigos que, embora entendessem do esporte, não realizavam uma narração jornalística, mas, sim, traziam comentários como em uma roda de conversa, cheios de gírias, palavrões e, é claro, piadas.

O aumento da popularidade trouxe mais oportunidades, como a transmissão dos jogos do Brasileirão, jogos Pan Americanos e das Olímpiadas 2024. Essa última, no entanto, trouxe à tona casos de grande repercussão em que a equipe de Casimiro cometeu algum “deslize” ou contou piadas indevidas durante a cobertura, o que irritou parte do público, especialmente quando eram causadas pela falta de pesquisa prévia dos apresentadores. 

A fórmula da CazéTV pode parecer um sucesso, especialmente com o aumento de público e o grande retorno financeiro, mas também cria uma certa expectativa sobre eles. “Mesmo sendo uma transmissão de entretenimento, ele [o canal] tropeça no jornalismo”, explica Marsiaj. E sendo ou não um produto jornalístico, ainda há, sim, a necessidade de responsabilidade quanto ao produto entregue ao público. 

Esporte não é brincadeira, nem o jornalismo

O debate sobre o papel do jornalismo na transmissão esportiva não é uma novidade. Em sua pesquisa, Mariana Marsiaj explora conceitos de grandes pesquisadores, como Tubino (2007), Bucci (2007), Dejavite (2006) e Gomes (2009), para conceituar como a espetacularização do jornalismo esportivo é algo muito mais discutido do que se imagina.

O esporte surge para muitas pessoas como o espetáculo, uma maneira de se desvincular do ambiente externo e aproveitar o jogo. Já o jornalismo é constantemente associado à prática factual do dia a dia, como se a profissionalização impedisse a diversão do conteúdo. Para discutir sobre jornalismo esportivo ser ou não entretenimento, é preciso compreender que uma atividade não é dissociada da outra, especialmente nos dias atuais.

Como parte do grande sistema atual que disputa a atenção do telespectador em todos os meios de comunicação, as transmissões esportivas buscam o espetáculo para atrair a comercialização, mas sem abandonar sua técnica. Manter a qualidade do produto é um desafio, mas que vêm sendo equilibrado e adaptado por jornalistas por anos.

Um exemplo desenvolvido na pesquisa é a reformulação do Globo Esporte em 2009, com ênfase no entretenimento. O sucesso do modelo atraiu a atenção do mercado e resultou em uma reprodução dessas tendências em outros programas esportivos da própria Globo, e também da concorrência. A abordagem mais dinâmica e quadros mais interativos com o público permitiram que as transmissões melhorassem, mas sem perder o profissionalismo.

Tiago Leifert ao lado do logo do Globo Esporte

O apresentador Tiago Leifert assumiu o comando do Globo Esporte durante a reformulação de 2009 e implementou um visual descontraído, linguagem leve e brincadeiras no programa [Imagem: Divulgação/Globo]

A proposta da CazéTV não é trazer algo revolucionário, mas, na verdade, tentar preencher uma lacuna do mercado em relação ao conteúdo informal, afinal, o entretenimento já é, por muitas vezes, integrado ao jornalismo. No entanto, quando o canal se propõe a cobrir todos os jogos e realizar entrevistas sem profissionais especializados, a informalidade pode tornar-se irresponsável.

Um dos casos de maior repercussão ocorreu durante a transmissão de nado sincronizado nas Olimpíadas 2024, em que o apresentador Guilherme Beltrão, no programa Zona Olímpica, teceu piadas infames em relação aos atletas do esporte, que iriam para as competições apenas para ganhar medalhas e, em suas palavras, “comer gente”.

A piada repercutiu de maneira imediata nas redes sociais, alcançando até a Confederação Brasileira de Desporto Aquático, que condenou a postura do canal. A CazéTV se desculpou formalmente pelo ocorrido e reforçou que o intuito do quadro Zona Olímpica era de promover o humor sem ofender os atletas. Mesmo não sendo propositais, posicionamentos inadequados como esse provavelmente não aconteceriam com um jornalista devidamente qualificado e preparado para a condução de mesas de conversa, fator que foi apontado  pelo público.

O que precisa ser levado em conta nessas críticas é justamente o alcance da plataforma. Com mais de 30 milhões de seguidores em todas as redes sociais e com um público majoritariamente na faixa etária de 18 a 34 anos, a responsabilidade do canal na abordagem de casos, como o do nado artístico, tende a crescer. Os apresentadores envolvidos, sejam eles profissionais do jornalismo ou não, recebem uma posição de grande visibilidade e que precisa ser tratada como tal. “Ele [o canal] vê que precisa ter especialistas a partir disso, que precisa de algo do jornalismo esportivo”, destaca Marsiaj.

Em sua dissertação, a jornalista analisa outros casos e suas repercussões, mas destaca como, mesmo com tantos exemplos, a pergunta norteadora de sua dissertação está longe de ser finalizada. O modelo CazéTV tem muito a contribuir para o futuro das transmissões esportivas, especialmente devido ao seu alcance nas redes sociais e engajamento entre um público mais jovem. No entanto, ainda há espaço para evoluir.

Segundo tempo e novas táticas

É indiscutível o crescimento da CazéTV. A pesquisa lançada em 2024 discute um panorama do canal que é extremamente dinâmico e não para de evoluir, o que faz com que essa discussão se mantenha sempre em alta. Depois da transmissão das Olimpíadas, o canal firmou parcerias com plataformas de streaming para retransmissão dos seus conteúdos, como a Amazon Prime VideoSky + Disney+, além da expansão no número de licenciados.

Em 2025, a CazéTV obteve os direitos de transmissão do Mundial de Clubes da FIFA, Liga Europa, Liga Conferência, Campeonato Alemão, Campeonato Francês, Copa da Itália e o clássico Campeonato Brasileiro de 2025, com uma transmissão oficial por rodada. O primeiro que, inclusive, quebrou o recorde de audiência antes detido por eles mesmos, com 5 milhões de telespectadores simultâneos durante a partida entre Fluminense e Chelsea. 

É claro que seus números continuam longe de alcançar a TV aberta, mas o crescimento não deixa de chamar a atenção para os próximos passos da empresa comandada por Casimiro. Ainda neste ano, a CazéTV irá transmitir a Libertadores Feminina, a Eurocopa Feminina e até jogos internacionais da NFL, expandindo sua presença no mercado esportivo. 

Além das transmissões ao vivo, a Cazé TV também conta com programas interativos e de debates, como o Tempo de Bola, End Zone e Zona Olímpica [Imagem: Reprodução/YouTube/CazéTV]

A diversificação dos conteúdos soa como uma estratégia de atrair os amantes de esportes que não tem espaço na TV aberta, ou seja, todos além do futebol. E com uma projeção que almeja atingir cada vez mais telespectadores de fora do seu público alvo mais jovem, talvez esse seja o primeiro movimento para profissionalização do conteúdo.

A CazéTV não quer perder o seu espaço. A abordagem mais descontraída, típica da internet, misturada ao improviso, é o que conquista e mantém grande parte do seu público. No entanto, em busca de um caminho para “furar a bolha”, é possível que as barreiras mudem. “A CazéTV não quer ser a Globo. Não quer ser o SporTV, mas eles sabem que em algum ponto, a qualidade deles depende dos jornalistas. Depende de ter pessoas fazendo bom jornalismo. Então, acredito que o canal vai sim se aproximar de algo mais polido, mas não necessariamente que seja mais politicamente correto”, finaliza Marsiaj. 

A contratação e aumento de destaque para jornalistas como Rafael Oliveira, Luis Alano, Luís Felipe Freitas e Fernanda Gentil dentro das transmissões é uma das demonstrações dessa busca. Como mencionado, muitas emissoras já passaram por reformulações passadas, mas o que a CazéTV tenta fazer agora é um pouco diferente. Além de trazer o entretenimento ao jornalismo, como a Globo fez em 2009, a equipe de Casimiro tenta aliar a ética jornalística às piadas “de quinta série” durante as transmissões. 

Um exemplo recente ocorreu partida entre Bayern de Munique (ALE) e Auckland City (NZL), em que os responsáveis pelo jogo teceram duros comentários aos jogadores da equipe amadora, fantasiados de piada. O fato gerou grande repercussão negativa e trouxe questionamentos em relação ao comportamento da CazéTV na transmissão de partidas oficiais com times de menor aporte. 

As novas táticas são apenas um começo para a adaptação do conteúdo online para se expandir. A competição é clara, e a CazéTV possui um grande potencial de audiência para desafiar as emissoras nos próximos anos. A sua única barreira parece ainda ser seus próprios limites, que não agradam todo o público. Mas, se uma boa abordagem jornalística for, de fato, adotada às transmissões, talvez esse seja apenas o começo do futuro da cobertura esportiva. 

*Fotode Capa: Divulgação/CazéTV

Autora: Clara Viterbo Nery.

Fonte: Jornalismo Júnior/USP.