Apoio internacional mantém a continuidade do projeto Brasil Sem Fronteiras, uma parceria entre ACNUR e Aldeias Infantis SOS desde 2018, que possibilitou a chegada e o acolhimento de 60 pessoas refugiadas venezuelanas em Brasília, após meses de deslocamento.
As crianças correram na frente assim que as portas se abriram. Admiraram as camas, os brinquedos, a vista da janela, sorriram diante da despensa e da geladeira cheias. Atrás delas, com o passo cansado de quem atravessou cinco meses em deslocamento, Kariannys Veliz entrou na nova casa. Ficou evidente que era mãe delas: compartilhava os mesmos traços de sorriso aliviado diante da possibilidade de recomeçar com dignidade em um espaço que, pela primeira vez em meses, era só da família.
O momento se repetiu entre as 13 famílias, 60 pessoas ao todo, que chegaram a Brasília na última sexta-feira (30/01) por meio do processo de interiorização nas Aldeias Infantis SOS, coordenado pela Operação Acolhida – estratégia do Governo Federal em resposta ao fluxo migratório venezuelano – com apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Famílias refugiadas venezuelanas vivenciam o primeiro momento ao entrar na casa onde passarão a viver no espaço de acolhimento das Aldeias Infantis SOS, em Brasília.
ACNUR/Alana Oliveira
O acolhimento ocorre no âmbito do projeto Brasil Sem Fronteiras, uma parceria que garante abrigo temporário, apoio psicossocial e acompanhamento para a integração local. A iniciativa agora entra em um novo momento, com sua continuidade assegurada por um aporte da Children’s Village Worldwide (CVW), organização que integra a rede global da Aldeias Infantis SOS, presente em mais de 130 países, referência em cuidado de crianças.
“Não esperávamos tanto. Tudo estava bonito, organizado. Ficamos muito surpreendidos.”
Kariannys veio de Ciudad Guayana, na Venezuela. “Viemos quase sem nada. Tivemos que começar do zero”, lembrou. O que encontrou no abrigo da Aldeias Infantis SOS em Brasília, portanto, foi o início de um tempo diferente. Um tempo em que se pode fechar a porta do quarto, tomar banho com privacidade, guardar roupas em um armário, ter segurança alimentar e voltar a fazer planos. “Meus filhos têm muitos sonhos”, contou. “Aqui eu me sinto confiante de que poderei realizá-los. Quero que estudem, que sejam alguém na vida. Estamos, de verdade, contentes por esse cuidado conosco.”
“Aqui nos fizeram sentir em casa. É um alívio e nos devolve a confiança e a esperança para seguir adiante.”

Sofía del Carmen e o filho Luciano Stefano, chegam ao espaço de acolhimento nas Aldeias Infantis SOS, em Brasília, com apoio do ACNUR e da Operação Acolhida.
ACNUR/Alana Oliveira
Sofía del Carmen, técnica ambiental, e Luis Beltrán Fuentes, técnico superior petroleiro, chegaram ao Brasil atravessados por incertezas. “Chegamos nervosos, cheios de expectativas e temores”, contou Sofía. O filho do casal, Luciano Stefano, resume o período: “Eu me sentia assustado”.
Luis, o pai, foi perseguido político na Venezuela, o que forçou a família a deixar tudo para trás. “Tivemos que sair do nosso país com todos esses traumas… Em alguns momentos, precisamos deixar de comer para que nosso filho comesse”, relembrou, com voz firme e testa franzida – expressão que logo se transformou em serenidade. “Mas aqui isso mudou. Essa tranquilidade e apoio que estamos recebendo amortecem os traumas e nos devolvem a esperança”, acrescentou enquanto Sofía e Luciano assentiam sorrindo.

Família venezuelana forçada a se deslocar recebe acolhimento em Brasília nas Aldeias Infantis SOS, com apoio do ACNUR e da Operação Acolhida.
ACNUR/Alana Oliveira
A mudança que se descortina agora, segundo a família, é a possibilidade de pensar no futuro sem que o presente esteja permeado por emergências. “Sempre mantivemos uma postura positiva, independentemente das adversidades”, afirmou Luis. “Mas as oportunidades que nos foram oferecidas aqui nos permitem fazer aquilo que toda família deveria poder fazer: planejar a própria vida.” O planejamento inclui também retribuir. “Queremos colocar nosso grão de areia, nossa força de trabalho e tudo o que temos de bom para colaborar com o desenvolvimento do Brasil”, disse.

Crianças refugiadas venezuelanas recebem acolhimento nas Aldeias Infantis SOS, em Brasília, com apoio do ACNUR e da Operação Acolhida.
ACNUR/Alana Oliveira
Ao fim do dia, Luciano se aproxima da janela de seu quarto. “As casas são muito bonitas e o clima aqui é muito bom”, diz. Em seguida, reflete sobre o que vem adiante: “Quero aprender português, estudar o máximo que puder e depois seguir a carreira que eu gostar. Quero ser arquiteto.” O pensamento se organiza a partir da experiência recente de ter, enfim, um lar.
Do abrigamento emergencial ao recomeço possível: a rede por trás da integração.

Famílias refugiadas venezuelanas chegam ao espaço de acolhimento das Aldeias Infantis SOS, em Brasília.
ACNUR/Alana Oliveira
Para Edson Neris Bahia, representante das Aldeias Infantis SOS, o momento traz um significado especial. “Para nós é um momento de muita alegria. Estávamos ansiosos pela chegada das primeiras famílias nessa nova fase do projeto, contemplada pela CVW. Um espaço bonito e tranquilo, com uma equipe que dará o apoio necessário para que essas famílias possam ter novas oportunidades para conquistar autonomia e independência”, relatou.
Mas o que parece apenas uma chegada ao abrigo é resultado de uma dedicação anterior realizada desde Boa Vista, Roraima. A realocação voluntária dessas famílias integra o processo de interiorização coordenado pela Operação Acolhida, estratégia do Governo Federal em resposta ao fluxo migratório venezuelano iniciado em 2018. Em colaboração com parceiros estratégicos como o ACNUR, a Força-Tarefa Logística Humanitária já interiorizou mais de 156 mil pessoas para cerca de 1.100 municípios brasileiros.
“Transformar vidas é a essência do nosso trabalho. A Operação Acolhida chega ao seu oitavo ano como um marco de dignidade e proteção social, buscando garantir a integração de refugiados e migrantes venezuelanos em situação de extrema vulnerabilidade nos municípios de todo o país”, declarou o Tenente-Coronel Magno Barros, chefe da Assessoria de Comunicação da Operação Acolhida).
Dentro dessa estratégia, a modalidade institucional organiza a chegada de famílias que não possuem rede prévia de apoio ou emprego fixo, mas carregam experiências profissionais, diversidade cultural e disposição para recomeçar, como destaca o Tenente-Coronel: “Essas pessoas possuem habilidades admiráveis, além de coragem e desejo de se inserir socioeconomicamente. Acreditamos que valorizar os dons e talentos de refugiados e migrantes, integrando-os plenamente à sociedade, é mais do que um dever humanitário, é um investimento direto no desenvolvimento do Brasil.”
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) situa a interiorização como etapa estruturante da resposta brasileira. “A interiorização é mais do que um deslocamento territorial: ela é um instrumento de garantia de direitos, que permite às famílias reconstruírem suas vidas com acesso à rede do SUAS, à educação, à saúde, ao trabalho e à convivência comunitária.”
Ao fortalecer parcerias com estados, municípios e organizações da sociedade civil, o Governo Federal sustenta uma política migratória baseada na dignidade humana e na inclusão social, convertendo a acolhida emergencial em trajetórias possíveis de integração no território brasileiro.

Isadora Vieira, Assistente Sênior de Soluções Duradouras do ACNUR, acompanha o acolhimento de pessoas refugiadas venezuelanas em Brasília.
ACNUR/Alana Oliveira
Portanto, o acolhimento em Brasília não se resume à chegada ao abrigo; mas é onde o planejamento ganha forma e continuidade. “Recebemos 13 famílias que chegam a Brasília buscando oportunidades reais de integração”, afirmou. “O ACNUR segue presente apoiando o Governo Federal, autoridades locais e organizações como as Aldeias Infantis SOS para garantir acesso a serviços, trabalho, geração de renda e proteção, aqui em Brasília e em outras partes do Brasil”. É assim que Isadora Vieira, Assistente Sênior de Soluções Duradouras do ACNUR, situa o momento.
O processo de interiorização, explica, é uma das chaves dessa estratégia. “Aqui, essas famílias passam a ter acesso a serviços, como educação, trabalho e geração de renda, com o objetivo de reconstruir suas vidas com dignidade.” Um trabalho que se faz em rede e que cria condições para que famílias como as de Kariannys, Sofía, Luis e Luciano possam voltar a permanecer, planejar e seguir adiante com segurança e pertencimento.
Fonte: ACNUR/ONU.
