Memorial da América Latina: luta, resistência e arte

Localizada em São Paulo, a fundação funciona como um ponto de encontro entre a cultura dos países, ao preservar histórias e criar laços entre povos.

Idealizada por Darcy Ribeiro — antropólogo, educador, escritor e político brasileiro —, a Fundação Memorial da América Latina foi inaugurada em 18 de março de 1989, com a intenção de tornar São Paulo o maior centro cultural de toda a região. 

Após o golpe militar de 1964, Darcy foi exilado e viveu em diversos países latino-americanos. A partir das experiências que obteve em seu percurso do México ao Peru — e das peças de arte recolhidas —, o antropólogo decidiu fazer do Memorial um ponto de convergência entre a cultura e história dos países da América Latina, estreitando-os política  e socialmente. 

Construído em apenas dois anos e com um orçamento dez vezes maior que o planejado, o complexo, localizado na região da Barra Funda — Zona Oeste de São Paulo —, conta com mais de 84 mil m², sendo 12 mil m² de área verde. 

Através da promoção de exposições, eventos culturais e espetáculos, a Fundação preserva a história latina e aproxima o Brasil não apenas de seus vizinhos, mas de suas origens. 

Entre cultura e pesquisa: a importância do espaço para a sociedade

Além de ser um centro de lazer e cultura para a população, o espaço também funciona como um importante órgão político-social. Com a atual gestão, do advogado Pedro Mastrobuono — especialista em preservação do patrimônio cultural e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) —, o número de investimentos têm crescido.

Em entrevista ao Sala 33, Marcelo Fernandes Pereira — doutor em música pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e vice-presidente do Conselho Consultivo do Memorial —, conta que, com a nova presidência, o espaço voltou a “tomar vida”. “Ele estava funcionando meio como um espaço de aluguel e agora está começando, de novo, com a curadoria”, comenta.

A Instituição possui grande relevância no mundo acadêmico. Segundo dados fornecidos pela Fundação, a relação entre pesquisador e bolsa se multiplicou nos últimos anos, chegando a quase 50 para cada auxílio ofertado. 

Interior da Biblioteca Latino-Americana Victor Civita, espaço de contribuição ao ensino, pesquisa e extensão cultural da região [Imagem: Amanda Yoshizaki/Acervo Pessoal]

Para Marcelo, a comunidade ainda precisa voltar a enxergar a fundação como um espaço multidisciplinar: “O memorial passou tanto tempo só fazendo cessão onerosa de espaço, só sendo alugado, que a comunidade deixou de olhá-lo com uma propriedade artística, um espaço utilizável”.

Mas não são todos que esqueceram do motivo pelo qual o memorial foi criado. Para Renato Pinto, visitante e admirador da cultura latino-americana, o local é de extrema importância:  “É um lugar que contribui com todas as culturas que nós quase nunca vemos. Não é comum explorar tanto outras partes da América, temos um conhecimento básico da América do Sul, mais voltado para o Brasil. Sendo que há outros países [para conhecer] também”. 

Já Fabiana Alencar, professora da educação infantil municipal, expressa seu interesse no aprendizado promovido pelas exposições devido ao convívio diário com imigrantes: “Nós temos muitos imigrantes. Bolivianos, venezuelanos. Os alunos  convivem dentro da escola, mas praticamente não conhecem nada da cultura do país dos amigos. É muito importante ter um espaço assim com exposições. E é gratuito, então eles podem entrar em contato com a cultura sem gastar nada.”

Como aparelho público, a Fundação Memorial da América Latina fornece assistência direta e indireta a imigrantes e refugiados no país. São disponibilizados cursos de português e dupla certificação para imigrantes com ensino superior, assim como suporte para inseri-los no mercado de trabalho. Refugiados também podem participar dos serviços de saúde fornecidos, além de pontos de doação e suporte para obtenção de documentos. 

Um projeto do maior arquiteto do país

O conjunto arquitetônico do Memorial é um aspecto notável. Desenvolvido por Oscar Niemeyer — célebre arquiteto  brasileiro — o espaço é distribuído em duas praças (Cívica e da Sombra), interligadas por uma passarela. 

A intenção era criar uma arquitetura usando técnicas apuradas, como as já utilizadas pelo arquiteto na projeção da Igreja da Pampulha (Belo Horizonte), inaugurada em 1943. Para isso, vigas e placas curvas de concreto pré-fabricado foram usadas— o que tornou a obra rápida, sem deixar de lado sua importância e magnitude.

Praça da Sombra vista da passarela responsável por unir as duas áreas do Memorial [Imagem: Amanda Yoshizaki/Acervo Pessoal]

O projeto foi estruturado em sete edifícios interdisciplinares: Pavilhão da Criatividade Darcy Ribeiro, Galeria Marta Traba, Salão de Atos Tiradentes, Biblioteca Latino-Americana Victor Civita, Auditório Simon Bolívar, Anexo dos Congressistas e Administração.

Em novembro de 2013, o Auditório Simon Bolívar foi acometido por um incêndio causado por um curto-circuito na rede elétrica. Apesar da arquitetura não ter sido completamente afetada, foi necessário realizar a restauração de peças que estavam no local — como é o caso da tapeçaria de Tomie Ohtake, que decorava a parede lateral entre as plateias. A recuperação da estrutura custou aproximadamente 42 milhões de reais e iniciou-se em 2015 — após dois editais de licitação —, com duração aproximada de quatro anos.

Na Praça Cívica, encontra-se uma das obras mais importantes do Memorial. A escultura de concreto “A Grande Mão”, de Oscar Niemeyer, é um verdadeiro marco do monumento e representa a luta dos povos latino-americanos por liberdade e justiça.

Em 7 metros de altura, a obra apresenta uma mão aberta em que, na palma, é esculpido o mapa da América Latina, em tom vermelho. A partir da simbolização de uma mancha de sangue, Niemeyer representa o passado de resistência e luta na região.

“A terceira escultura foi a grande mão que desenhei, construída no Memorial da América Latina, em São Paulo, com o mapa do continente a escorrer sangue e esta frase elucidatória : ‘Suor, sangue e pobreza marcaram a história dessa América Latina tão desarticulada e oprimida’. Agora urge reajustá-la, uni-la, transformá-la num monobloco intocável, capaz de fazê-la independente e feliz.”

Oscar Niemeyer

A escultura “A Grande Mão” de 7 metros de altura, do arquiteto Oscar Niemeyer foi feita em concreto, com a pintura do mapa em vermelho, que representa o sangue que simboliza o sofrimento e a luta dos povos latino-americanos contra a opressão [Imagem: Amanda Yoshizaki/Acervo Pessoal]

Um acervo composto de riqueza cultural

O Memorial da América Latina abriga um dos acervos culturais mais importantes sobre a identidade e a diversidade dos países latino-americanos, distribuído em diferentes espaços e voltado à preservação, promoção e estudo da cultura latino-americana. No local, é possível encontrar diversos artefatos, produções literárias, obras de 15 metros de altura e muita representatividade. 

Pavilhão da Criatividade Darcy Ribeiro concentra o principal acervo físico do Memorial, com aproximadamente quatro mil peças representativas das culturas populares da América Latina. Conta com um ambiente de fácil circulação, no qual estão expostos objetos e obras que geram uma imersão nos costumes e tradições dos países latinos.

O Memorial firmou uma parceria com o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF) para digitalizar e preservar o seu acervo, ampliando o acesso ao patrimônio cultural latino-americano por meio de plataformas digitais  [Imagem: Amanda Yoshizaki/Acervo Pessoal]

Ao adentrar seu interior, é possível presenciar uma maquete em grande escala do mapa da América Latina, incorporada ao piso, sob uma placa de vidro temperado, que permite ao visitante ter a sensação de caminhar por cima da região do continente. A obra, de 48 m², é composta por aproximadamente mil peças em miniatura, que representam monumentos, elementos do folclore, pessoas e animais característicos dos países latino-americanos.

A maquete foi criada pelos artistas Gepp & Maia e oferece uma visão artística e lúdica da geografia latino-americana [Imagem: Amanda Yoshizaki/Acervo Pessoal]

Ao explorar todo o pavilhão, os visitantes se deparam com vestimentas, uma coleção de objetos produzidos por diferentes povos indígenas, brinquedos e bonecas tradicionais, cerâmicas, máscaras de rituais, esculturas, pinturas e instrumentos. Os artefatos carregam muitas histórias e culturas provenientes de países como  Bolívia, Brasil, Colômbia, Cuba, México, Peru e Venezuela.

A Dança dos Macacos (ou Baile de los Micos) é uma tradicional manifestação folclórica presente na Guatemala, na qual os participantes dançam e se vestem com máscaras e roupas características  [Imagem: Amanda Yoshizaki/Acervo Pessoal]

O Salão de Atos Tiradentes possui 30 metros e abriga obras de arte que homenageiam personagens fundamentais da história da América Latina, como os Painéis em baixo-relevo de Poty Lazzarotto e Carybé.  São seis painéis de quinze metros de altura e quatro metros de largura que representam a formação dos povos modernos latino-americanos. Essas obras dialogam com a arquitetura do espaço e reforçam a identidade cultural do continente. 

Todos os painéis foram feitos no Salão de Atos Tiradentes, antes de ser feita a cobertura do local  [Imagem: Amanda Yoshizaki/Acervo Pessoal]

Outra criação artística presente no espaço do Salão é o Painel Tiradentes, de Cândido Portinari: uma pintura composta por três telas justapostas, com aproximadamente três metros de altura e dezessete metros de largura. Concluída em 1949, a obra retrata episódios e protagonistas da Inconfidência Mineira. Foi adquirida pelo Governo do Estado em 1975 e permaneceu no Palácio dos Bandeirantes até ser transferida para o Memorial em 1989. 

A biblioteca  possui um acervo especializado com aproximadamente 42 mil itens e uma coleção audiovisual composta por mais de 3 mil títulos, incluindo filmes de países como Cuba, México e Argentina [Imagem: Amanda Yoshizaki/Acervo Pessoal]

Biblioteca Latino-Americana Victor Civita é um dos espaços centrais do Memorial da América Latina e reúne uma coleção especializada em temas que refletem a diversidade e a riqueza da região. O local é aberto ao público e seu acervo é somente para consulta local devido à raridade e à especificidade de seus itens, que exigem maior preservação. Então, não é possível  emprestar obras, contudo, há espaços apropriados para leitura, estudo e pesquisa. 

Eventos e atividades proporcionadas

O Memorial da América Latina oferece uma programação diversificada que celebra aspectos culturais dos países latino-americanos, como festivais gastronômicos, shows musicais, festas tradicionais, exposições temáticas e atividades acadêmicas. 

O local recebe atrações como o Coala Festival, que chega à sua 11ª edição em 2025, e se consolida como um dos principais eventos de música brasileira contemporânea. Os shows ocorrerão nos dias 5, 6 e 7 de setembro no Memorial da América Latina e trarão artistas como Liniker, Marina Sena, Caetano Veloso e BK’.

O Coala Festival é um dos maiores festivais dedicados à música brasileira contemporânea e é conhecido por sua curadoria que mistura grandes nomes da música brasileira com novos talentos [Imagem: Reprodução/Instagram/@coalafestival]

O vice-presidente do Conselho Curador do Memorial da América Latina, Marcelo Fernandes Pereira, evidencia a importância da realização de eventos como o Coala Festival: “os shows em forma de locação são muito importantes para trazer uma arrecadação à fundação, porque ela não tem 100% de subvenção pública. Com essa arrecadação, o Memorial consegue executar suas políticas públicas.”

O Memorial também realiza  festivais anuais de gastronomia, que reúnem comidas de diversos países da América Latina. Em específico, a culinária mexicana é desfrutada no local, principalmente na Fiesta de Muertos, realizada anualmente para celebrar a cultura mexicana e o significado da data, com exposição de altares, apresentações, concursos de fantasia e maquiagem típicas. 

O Dia de los Muertos é uma tradicional celebração mexicana que honra e lembra os entes queridos que já faleceram e acontece anualmente no México, no dia 2 de novembro [Imagem: Reprodução/Instagram/@memorialdaamericalatina]

Os eventos atraem visitantes de diversas regiões que buscam ter um contato maior com a cultura dos países próximos ao Brasil. “Por mais que sejamos vizinhos dessas regiões, temos mais conhecimento da parte europeia e norte americana do mundo, e isso é a mesma coisa de você não conhecer os vizinhos do lado de casa” diz Paula Caetano, professora de educação infantil da prefeitura de São Paulo, em entrevista ao Sala 33.

O compromisso com a educação

O Memorial da América Latinaé também um difusor de educação e atividades acadêmicas. As atividades educacionais do Memorial estão estruturadas principalmente  no Centro Brasileiro de Estudos da América Latina (CBEAL), na Cátedra Memorial da América Latina – UNESCO/UNITWIN e nos programas de bolsas de pesquisa.

O CBEAL foi criado em 1989, na mesma época do Memorial da América Latina e reúne pesquisadores de áreas como história, sociologia, ciência política, antropologia, economia e cultura [Imagem: Reprodução/ Instagram/@memorialdaamericalatina]

O CBEAL é o núcleo acadêmico da Fundação Memorial da América Latina, criado para fomentar pesquisas e ações de ensino voltadas à reflexão sobre temas latino-americanos, além de divulgar os trabalhos desenvolvidos na Revista Nossa América. O centro também oferece cursos gratuitos, frequentemente em parceria com instituições como a Universidade de São Paulo (USP) , Unicamp e Unesp.

Cátedra foi criada em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e universidades brasileiras de referência. Ela integra a rede University Twinning and Networking Programme (UNITWIN), voltada à cooperação acadêmica internacional. O projeto concede bolsas para doutorandos e pós-doutorandos, e incentiva o desenvolvimento de estudos sobre temas relevantes para a América Latina. Além disso, organiza seminários, simpósios e colóquios para proporcionar o debate sobre questões contemporâneas que impactam a região. O foco das pesquisas inclui temas como saberes tradicionais, movimentos culturais e sociais. 

O livro digital Cadernos da Cátedra – Vol. I: movimentos na América Latina traz os artigos resultantes das pesquisas desenvolvidas durante 2020 e pode ser baixado gratuitamente no site do Memorial [Imagem: Reprodução/Instagram/@catedramemorial]

O Memorial da América Latina oferece bolsas para estudantes e acadêmicos em diferentes níveis, o que evidencia sua política de apoio à formação de pesquisadores. Entre esses incentivos está o programa de Bolsas FMAL-CBAL que é voltado para estudantes de graduação (com vínculo à iniciação científica), mestrado, doutorado e pós-doutorado. O objetivo principal é incentivar jovens pesquisadores a desenvolverem estudos relacionados às culturas e sociedades latino-americanas.

As inscrições para ambos os programas são realizadas mediante editais públicos divulgados no site oficial do Memorial da América Latina. O processo seletivo envolve a análise do projeto de pesquisa, currículo e, em alguns casos, entrevistas. 

Autora: Amanda Yoshizaki.

Fonte: Jornalismo Júnior/USP.