Pessoas idosas venezuelanas encontram acolhimento e chance de recomeço em Nova Iguaçu (RJ)

Por meio da Operação Acolhida e com apoio da Prefeitura, grupo de idosos que estava em Roraima mudou voluntariamente para o município onde, além de moradia digna, encontra apoio e acesso facilitado a serviços essenciais.

Embora o número de pessoas venezuelanas com mais de 60 anos represente apenas 1% das mais de 702 mil que buscam proteção no Brasil, a integração local e o atendimento de demandas específicas dessa população podem apresentar desafios adicionais. Porém, no município de Nova Iguaçu (RJ), um grupo de idosos tem encontrado não apenas acolhimento, mas apoio para seguir a vida com segurança e dignidade.

Por meio da Operação Acolhida e com o apoio da Prefeitura de Nova Iguaçu, o município já recebeu mais de 50 idosos desde 2020. Apenas em 2025, foram 10 pessoas recebidas pelo processo de realocação voluntária, ou interiorização, conduzida pelo Governo Federal. E, em janeiro de 2026, outros cinco idosos foram interiorizados para o município. Na Casa de Acolhida ao Imigrante Jardim Paraíso, esse grupo recebe quatro refeições diárias, aulas de português, apoio e acompanhamento em serviços essenciais, como Saúde e Assistência Social, além de atividades de lazer. E, aos que desejam, também apoio para compreender e se preparar para o mercado de trabalho brasileiro.

A equipe da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) visitou o espaço em outubro, quando 11 pessoas idosas estavam acolhidas no local. O engenheiro Sergio Morales era um deles. Aos 67 anos, ele decidiu buscar oportunidades no Brasil depois que os filhos mudaram para outros países. Sozinho, chegou a Boa Vista e, após quase um ano abrigado, viu na interiorização uma chance para conseguir trabalhar e voltar a ser independente.

“Eu me entusiasmei com a oportunidade de vir para o Rio de Janeiro, porque, pessoalmente, não volto para a Venezuela”, conta. Apesar de colecionar décadas de trabalho na construção civil, ele afirma que, o que mais deseja atualmente, é encontrar um emprego em qualquer área. “Eu ainda me sinto útil, posso me manter por mim mesmo, com meu trabalho. Quero trabalhar aqui no Brasil, não importa onde. Eu vim sem ninguém e me sinto capaz de seguir trabalhando”, completa.

O venezuelano Sergio Morales acolhido em Nova Iguaçu (RJ)

Aos 68 anos, o venezuelano Sergio Morales espera conseguir um emprego e alcançar autonomia no Brasil

© ACNUR / Paola Bello

O desejo de conseguir uma fonte de renda é compartilhado pela professora Yurima Guevara. Ela conta que solicitou asilo ao Brasil por de sofrer perseguições políticas na Venezuela. Depois de perder o único filho, assassinado, recaiu sobre ela o cuidado integral da mãe, que sofre com demência, e do pai, que tem perdido a visão gradativamente. Os três haviam chegado ao Brasil no início do ano passado. Após três meses abrigados em Boa Vista, decidiram participar do processo de interiorização.

“Aqui, vivemos em uma casa com piso, com banheiro dentro. Em Boa Vista, minha mãe chorava todas as noites. Foram três meses e 13 dias chorando, contados um a um pelo meu pai. Aqui, ela nunca chorou”, afirma Yurima. “Recebemos atendimento de saúde, minha mãe fez seus exames, vai ao médico. Já recebemos uma enfermeira aqui para atender minha mãe. Meu pai tem consulta agendada com o oftalmologista. Eu consegui medicamento para pressão alta, me deram de graça na farmácia popular. A mudança é significativa”, comemora.

A venezuelana Yurima Guevara, acolhida em Nova Iguaçu (RJ)

A professora Yurima Guevara cuida da mãe, também acolhida em Nova Iguaçu (RJ)

© ACNUR / Paola Bello

“Muitos que chegam aqui perderam tudo na Venezuela, chegaram a perder família, não tinham o que comer. Eles vêm pra cá em busca de uma vida melhor”, ressalta do coordenador da Casa de Acolhida ao Imigrante Jardim Paraíso, José Carlos de Oliveira. “Todos aqui estão ótimos. Fazem tratamento de saúde, participam das aulas de português. A gente também leva pra passear, pra “bailar”, como eles falam. A gente apoia para que eles consigam se organizar e ter um lar deles mesmos e tocarem a vida do jeito que acharem melhor.”

Ação integrada com poder público

A parceria entre o ACNUR e a Prefeitura de Nova Iguaçu é de longa data e conta com várias frentes, incluindo o treinamento de equipes da Assistência Social para o atendimento e acolhimento de pessoas refugiadas que passam pelo processo de interiorização e a doação de itens para os abrigos que recebem essas pessoas. Apenas em 2025, foram três diferentes treinamentos com equipes – sobre coordenação e gestão de abrigos, atendimento humanizado, e sobre o contexto venezuelano e a Operação Acolhida. Também foram doados eletrodomésticos, móveis e utensílios domésticos equipar uma nova Casa de Acolhida – que, em 2026, receberá famílias monoparentais, lideradas por mulheres. Os locais também contam com o apoio do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).

Para Maria Beatriz Nogueira, chefe do escritório do ACNUR em São Paulo, que atende a região Sudeste, o apoio da prefeitura é essencial para oferecer condições de um recomeço também a pessoas idosas. “Temos uma parceria muito importante com a prefeitura, que tem oferecido acolhimento a essas pessoas de forma digna, facilitando o acesso a serviços de saúde e acompanhamento psicossocial, oferecido aulas de português e, aos que desejam, apoio para ingressar no mercado de trabalho. É uma iniciativa inclusiva, que garante não deixar ninguém para trás”, destaca.

Nesse contexto, Yurima traduz o sentimento compartilhado por quem está acolhido em Nova Iguaçu. “Eu me sinto mais segura, meus pais se sentem mais seguros, se sentem mais tranquilos. Minha mãe diz que aqui as pessoas são amáveis”, afirma. “Aqui no Brasil há algo que não há na Venezuela, que é a esperança. Aqui eu tenho a esperança de que, em algum momento, posso alcançar minhas metas, posso ir superando as dificuldades. O Brasil nos devolveu a esperança, a esperança para seguir vivendo, a esperança para seguir lutando.”

Pessoas idosas venezuelanas encontram recomeço em Nova Iguaçu (RJ)

© ACNUR / Paola Bello

Fonte: ACNUR/ONU.