Levantamento foi feito por organizações lideradas por refugiados no estado entre agosto e dezembro, com apoio do ACNUR, e aponta para baixa remuneração, dificuldades para cobrir despesas essenciais do lar e necessidade de apoio para acessar programas sociais.
Pessoas refugiadas e migrantes no Rio Grande do Sul vivem com renda bastante inferior à média para o estado, apresentam dificuldade para cobrir despesas essenciais do lar, como alimentação, e demandam apoio para acessar benefícios sociais. Esses são alguns dos achados de censo que tem sido realizado em 2025 por organizações lideradas por pessoas refugiadas no estado, com apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).
O levantamento é uma iniciativa da organização Migrantes e Refugiados Unidos – RS, um coletivo de organizações lideradas por pessoas refugiadas no estado. Entre agosto e dezembro, foram entrevistadas 401 famílias em sete municípios – Porto Alegre, Canoas, Esteio, Cachoeirinha, São Leopoldo, Venâncio Aires e Caxias do Sul. O censo busca identificar o perfil socioeconômico das pessoas refugiadas e migrantes, mapear necessidades prioritárias e fornecer dados para criação e fortalecimento de políticas públicas e iniciativas voltadas para a inclusão e integração dessa população.
“Vemos, dia após dia, mais pessoas refugiadas e migrantes chegando ao Rio Grande do Sul. Como eu, muitos chegam sem informação sobre como acessar os serviços públicos, sobre como matricular crianças na escola, sobre como renovar a documentação. Essa inquietude nos levou a iniciar esse censo”, explica o presidente da Migrantes e Refugiados Unidos – RS, Gabriel Lizarraga. “Sabemos que o Brasil é um país bastante acolhedor, mas ainda é preciso construir políticas públicas que nos incluam. Por isso, os dados que estamos coletando serão levados aos governantes e esperamos que sirvam de base para a criação dessas políticas”, completa.
“O ACNUR trabalha diretamente com organizações lideradas por pessoas refugiadas e migrantes porque entende que é fundamental incluí-las na construção de sociedades mais inclusivas. Temos apoiado a realização deste censo desde o início porque ele irá fornecer dados importantes sobre essas comunidades e suas demandas, assim como oportunidades para melhoria na garantia do acesso a serviços essenciais”, completa a chefe do escritório do ACNUR no Rio Grande do Sul, Pollyana de Lima.
Perfil socioeconômico
Embora a maioria das famílias alcançadas pelo levantamento seja de pessoas vindas da Venezuela (77,6%), também estão representadas pessoas vindas da Colômbia (6,2%), Cuba (4,5%), Peru (4,5%), Haiti (4,5%) e Argentina (3%). Para facilitar o acesso às famílias, os questionários foram aplicados aos finais de semana, próximos de sedes ou residências das lideranças.
Menos da metade (45,4%) das famílias entrevistadas são chefiadas por pessoas com emprego formal, com contrato CLT. Dos demais participantes, 26,9% afirmaram não estar trabalhando no momento da entrevista, enquanto 15,2% tinham emprego informal (por diária) e outros 12,5% se declararam microempreendedores.
Em 204 das 401 famílias entrevistadas, a pessoa chefe de família possui ensino médio completo, enquanto que o ensino superior completo corresponde à escolaridade de 56 chefes de família, e superior incompleto, de outros 35. Embora a escolaridade seja relativamente alta, os anos de estudo não se traduzem em maiores remunerações.
A renda média das famílias entrevistadas se mostrou bastante abaixo da média tida para o Rio Grande do Sul. De todos os participantes, 21,7% vivem com menos de R$ 500 por mês para a família, 22,7% afirmam ter renda entre R$ 600 e R$900 e 18,2% recebem entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil por mês. Juntas, as três faixas representam 62,6% de famílias vivendo com menos de um salário mínimo gaúcho (que, em sua faixa mais baixa, ficou em R$ 1.789 em 2025). Os valores também estão abaixo do rendimento médio domiciliar para o Rio Grande do Sul em 2024, divulgados pelo IBGE, de R$ 2.608 por mês.
Acesso a serviços e benefícios sociais
A saúde é o serviço público mais acessado pelas famílias entrevistadas. Do total, apenas 8% afirmaram não ter o cartão do Sistema Único de Saúde (SUS). Por outro lado, embora a maioria se encontre em situação de vulnerabilidade, mais de metade (56,6%) não tem acesso a benefícios socioassistenciais e um em cada três afirmaram não estar inscrito no Cadastro Único.
Das 401 famílias entrevistadas, 325 vivam em imóvel alugado no momento da entrevista. Também foram indicadas 41 residências em ocupações e 22 famílias morando em locais cedidos por familiares ou amigos, sem pagamento de aluguel. Apenas 12 famílias afirmaram morar em imóvel próprio. Ainda sobre a residência, foram identificadas famílias com banheiros instalados na parte externa, e outras que afirmavam não ter banheiro adequado no local de moradia.
Entre as necessidades identificadas no levantamento, as que mais se destacam são as de apoio para acessar benefícios sociais (indicado por 16,4% das famílias), cursos (14,9%) e aulas de português (10%). Também estiveram entre as demandas identificadas a necessidade de apoio para acessar vagas de emprego (11,8%), para abrir o próprio negócio (12,9%) e para ter acesso à alimentação (10,7%).
Apoio a necessidades imediatas
Além de entrevistar famílias de pessoas refugiadas e migrantes, durante a realização do censo, as lideranças buscam resolver algumas demandas mais urgentes, como apoio para solicitação e renovação de documentação, encaminhamentos para atendimentos em serviços e apoio para confecção de currículos, com apoio da equipe do ACNUR em Porto Alegre.

Recém-chegada ao Brasil , a venezuelana Gleidy Figuera participou do censo e recebeu instruções para matricular os filhos na rede pública de ensino
© ACNUR / Paola Bello
A venezuelana Gleidy Figuera havia chegado há apenas três dias ao Brasil quando participou do censo, em setembro. Após a entrevista, ela recebeu instruções para matrícula dos filhos na rede pública de ensino e teve auxílio para confecção de seu currículo. Para ela, ter essa rede de apoio desde o começo torna o processo de integração menos difícil.
“Saí do meu país porque a situação econômica estava difícil e porque meus filhos não estavam mais conseguindo estudar”, conta. “Essa iniciativa é muito boa porque podem conhecer as necessidades que apresentamos e conseguem nos orientar para que nos integremos melhor à comunidade. Aqui, já me instruíram sobre onde buscar apoio, como posso acessar serviços, aonde devo ir para matricular meus filhos na escola. Agora quero encontrar um emprego, para que eu e meus filhos consigamos nos estabelecer aqui”, completa.
Pesquisa continuada
Os dados resultantes dos levantamentos feitos em 2025 foram apresentados publicamente em dezembro, em evento que reuniu lideranças refugiadas e migrantes, assim como representantes do poder público e da academia. A intenção é que as entrevistas sigam em 2026 e que alcancem uma diversidade maior de nacionalidades representadas.
Fonte: ACNUR/ONU.
