Desigualdade enfrentada por meninas e mulheres refugiadas exige ações urgentes

Iniciativas voltadas à inclusão de meninas e mulheres refugiadas são fundamentais para mitigar as desigualdades de gênero.

Neste momento, em 2026, as mulheres possuem apenas 64% dos direitos legais que os homens têm em todo o mundo. Em áreas fundamentais da vida, incluindo trabalho, dinheiro, segurança, família, propriedade, mobilidade, negócios e aposentadoria, a lei sistematicamente desfavorece as mulheres. Se nada mudar, serão necessários 286 anos para fechar as lacunas de desigualdades na proteção legal.

No Brasil, a desigualdade de gênero entre a população refugiada é percebida em dados do estudo A Estratégia de Interiorização para refugiadas, refugiados e migrantes da Venezuela no Brasil: construindo evidências para informar a formulação de políticas responsivas ao gênero. Realizada pelo ACNUR, ONU Mulheres e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), a pesquisa foi feita no âmbito do Programa Conjunto Moverse, financiado pelo Governo de Luxemburgo. Foram entrevistadas 1.415 pessoas interiorizadas pela Operação Acolhida.

A Estratégia de Interiorização é um dos pilares da Operação Acolhida. Iniciativa que leva pessoas refugiadas e migrantes que estão em Roraima, principal porta de entrada dessa população, para outros estados do Brasil, apoiando o processo de acolhimento e proteção humanitária. Sob liderança do Governo Federal, envolve uma complexa articulação entre populações refugiadas e migrantes, gestores e operadoras humanitárias, militares e sociedade civil organizada, abrangendo mais de mil municípios brasileiros.

Mulheres são minoria entre as pessoas interiorizadas

Embora as mulheres representem metade da população venezuelana que chega ao Brasil, elas somam apenas 46% entre a população interiorizada. Homens sem filhos e com maior nível educacional têm mais chances de conseguirem oportunidades para interiorização voluntária de Roraima para outros estados.

Uma mulher está descendo de um ônibus, segurando uma bola colorida em uma das mãos e um recipiente transparente na outra. Ela veste uma camiseta rosa com uma ilustração detalhada na frente e um casaco claro por cima. No interior do veículo, outra pessoa segura uma bandeja branca. Ao fundo, há vegetação desfocada fora do veículo.

Diliannis foi interiorizada na modalidade Institucional, quando a acolhida é feita por um abrigo na cidade de destino. Esta modalidade prioriza pessoas em situação de maior vulnerabilidade social, como famílias com crianças pequenas, mães solo e pessoas com algum tipo de deficiência.

ACNUR/Alana Oliveira

A interiorização é realizada por modalidades (Vaga de Emprego Sinalizada, Reunificação Familiar, Reunificação Social e Institucional) e quando expandimos os dados, aprofunda-se a desigualdade.

Entre a população interiorizadaMulheresHomens
Participação na força de trabalho70%90%
Taxa de desemprego18%9%
Subutilização da força de trabalho28%12%
Informalidade29%22%
Renda Média IndividualR$1.463,93R$1.953,20

Uma das modalidades de interiorização é chamada de Vaga de Emprego Sinalizada (VES), em que a pessoa é realocada com emprego garantido.

Apenas 32% das pessoas interiorizadas com vaga de emprego são mulheres

O dado indica as barreiras de acesso ao mercado formal de trabalho. Em contraste com as oportunidades, as mulheres possuem maior escolaridade média que homens entre interiorizados, mas isso não se traduz em melhores oportunidades de emprego.

Outro dado preocupante diz respeito ao domínio da língua portuguesa: 35% das pessoas interiorizadas afirmam ter dificuldade ou nenhuma compreensão do idioma.

Mulheres interiorizadas têm mais dificuldade com o aprendizado de português

Segundo o estudo, 32,3% delas têm dificuldade, enquanto os homens somam 22,3%. A limitação no idioma compromete o acesso a serviços públicos e oportunidades de inserção profissional e social.

Dentre a população interiorizada, 85% das mulheres têm filhos, enquanto 75% dos homens são pais. Mais mulheres vivem como únicas responsáveis por crianças, o que evidencia um número expressivo de famílias monoparentais. Isso se reflete na modalidade de interiorização por Reunificação Familiar, em que as mulheres correspondem a 53%, reforçando a vinculação com responsabilidades de cuidado.

Os dados ficam ainda mais contrastantes quando esta análise considera as populações refugiadas e migrantes em abrigos da Operação Acolhida.

Entre a população abrigadaMulheresHomens
Participação na força de trabalho34%61%
Taxa de desemprego70%52%
Renda Média IndividualR$530R$955

Os dados completos podem ser acessados em: onumulheres.org.br/pesquisa-moverse. A pesquisa referenciada foi conduzida pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais, Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas Administrativas e Contábeis de Minas Gerais, Universidade Federal de Roraima e Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG).

E diante de tudo isso, como mitigar as desigualdades enfrentadas por refugiadas?

Diante destes e de demais dados que evidenciam a desigualdade e as barreiras vividas por mulheres e meninas refugiadas, o ACNUR desempenha um papel catalisador e de articulador, reunindo governos, atores de desenvolvimento, doadores e o setor privado para ampliar o acesso à educação e a inclusão econômica de refugiadas. Ao alinhar esforços às prioridades dos Estados e aos compromissos do Pacto Global sobre Refugiados, o ACNUR busca promover autossuficiência, resiliência e soluções de longo prazo para mulheres e meninas.

No Brasil, projetos voltados ao empoderamento de mulheres e meninas contaram com o apoio do Governo do Japão, que doou 699 mil dólares para o ACNUR garantir proteção, fornecer assistência humanitária e promover a inclusão socioeconômica mais de 15 mil mulheres refugiadas e migrantes venezuelanas. Conheça algumas destas iniciativas;

Chicas Digitais: incentiva o ingresso de jovens refugiadas e migrantes no universo da tecnologia. O projeto, iniciado em Manaus em 2025, promove uma imersão em Informática, Programação de Computadores e Inteligência Artificial (IA). É executado pelo Instituto Hermanitos, em parceria com o ACNUR.

Sete jovens mulheres posam para foto segurando um diploma referente a uma formação. Elas estão de camiseta branca com as mangas roxas, que é o uniforme do projeto Chicas Digitales do ACNUR com o Instituto Hermanitos

A primeira turma do projeto Chicas Digitais formou 18 jovens na cidade de Manaus (AM)

Instituto Hermanitos

Empoderando Refugiadas: a iniciativa conjunta do ACNUR, ONU Mulheres e Pacto Global completou em 2025 a 10ª edição tendo impactado mais de 900 mulheres com aulas e oficinas profissionalizantes e socioemocionais. As participantes, conhecidas como Empoderadas, participam de entrevistas de emprego com objetivo de conquistar uma primeira oportunidade no mercado de trabalho ou mesmo crescer e se desenvolver profissionalmente no Brasil. Conheça o Empoderando Refugiadas.

Mujeres Fuertes: oferece uma jornada de formação empreendedora para mães solo e chefes de família. As participantes têm acesso a formações com especialistas em construção e formalização de marca, educação financeira, estratégias de vendas, marketing digital, captação e fidelização de clientes. É executado pelo Instituto Hermanitos, com recursos de reversão trabalhista do Ministério Público do Trabalho do Amazonas e Roraima e apoio do ACNUR e do Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região. Saiba mais sobre o projeto Mujeres Fuertes.

Brazil. Hermanitos association, Manaus

Mujeres Fuertes é uma iniciativa da associação Hermanitos, em parceria com o ACNUR e o Ministério Público do Trabalho no Amazonas (MPT-AM), que busca fortalecer mulheres venezuelanas por meio de ações de empoderamento, capacitação, apoio psicossocial e incentivo a iniciativas empreendedoras em Manaus

© UNHCR/Alef Kaf

Programa Conjunto Moverse: iniciativa implementada por ONU Mulheres, ACNUR e UNFPA, com o apoio do Governo de Luxemburgo. Busca apoiar a construção de políticas e estratégias que promovam o empoderamento econômico, a proteção, a liderança e participação política de mulheres refugiadas e migrantes que vivem no Brasil.

Organizações Lideradas por Mulheres Refugiadas: o ACNUR já mapeou 20 organizações lideradas por mulheres refugiadas e contribuiu financeiramente com 14 delas como forma de fortalecer a proteção comunitária e incentivar a convivência pacífica com a comunidade de acolhida. Algumas destas organizações oferecem seus serviços também para pessoas brasileiras em situação de vulnerabilidade. Saiba mais e conheça algumas organizações lideradas por mulheres refugiadas.

Brazil. Refugee-Led Organizations leaders

Fiorella Ramos Blanco, indígena Warao, é presidente da Organização de Indígenas Venezuelanos no Amazonas e Brasil (OIVAB), que apoia pessoas refugiadas e migrantes indígenas venezuelanas no Brasil, especialmente em Manaus.

© UNHCR/Alef Kaf

Para além dos projetos, o ACNUR Brasil e seus parceiros fortalecem a capacidade das redes locais de proteção para prevenir e responder à violência baseada em gênero (VBG) que afeta meninas e mulheres refugiadas. Foram realizadas atividades de desenvolvimento de capacidades e apoio prático aos serviços que lidam com casos de sobreviventes de violência baseada em gênero. Esses esforços foram complementados pela participação do ACNUR em comitês estaduais de enfrentamento ao tráfico de pessoas, o que aprimorou a coordenação nas interseções entre VBG, tráfico de pessoas e deslocamento.

O intuito de todo esse esforço conjunto é garantir que cada mulher e menina deslocada possa exercer seus direitos: ao asilo, identidade legal, educação, saúde, proteção contra discriminação e influência sobre as decisões que afetam sua vida.

Fonte: ACNUR/ONU.